2.13.2008

Os erros


Na imagem, Epimetheus, satélite de Saturno, fotografado pela nave Cassini.

Todas as formas de pensar que observamos em nós podem ser referidas a duas gerais: uma consiste em apreender através do nosso entendimento, a outra a determinar-se pela vontade. Deste modo, sentir, imaginar e mesmo conceber coisas puramente inteligíveis, não são mais do que maneiras diferentes de apreender; mas desejar, ter aversão, afirmar, negar, duvidar, são diferentes formas de querer.

Quando apreendemos alguma coisa, não corremos o risco de nos enganarmos se não a julgarmos de um modo algum; e, ainda que a ajuizemos, não nos enganaremos se só dermos a nossa aprovação àquilo que sabemos clara e distintamente estar compreendido no que ajuizamos. Mas o que faz com que habitualmente nos enganemos é que julgamos muitas vezes sem ter um conhecimento muito exacto daquilo que julgamos.
Princípios da Filosofia

Com esta obra, Descartes pretendia definir os verdadeiros Princípios da Filosofia, contendo verdades muito claras e muito evidentes que poderiam acabar com todos os motivos de discussão, guiando as pessoas no caminho da descoberta de outras verdades. Tinha, no entanto, consciência de que poderão passar-se vários séculos antes que se tenham deduzido desses Princípios todas as verdades.

Isto não vos lembra nada?

Nebulosa NGC 3132


Esta fotografia tenta tirar partido do jogo entre simetria e assimetria da forma desta nebulosa, que lhe dá um carácter muito próprio.
As razões da forma invulgar do invólucro e da estrutura e localização dos filamentos de poeira que atravessam a nebulosa deixam ainda algumas dúvidas aos especialistas.

UNIVERSO


Galáxia M74
AQUI
Este site tem todos os dias uma nova fotografia de algo relacionado com a ciência e a exploração do espaço exterior. Como tal, é um interessante meio de compararmos as várias concepções de conhecimento com os resultados da investigação científica.

Na unidade seguinte, vamos falar precisamente da ciência, do modo como evolui, dos seus fundamentos e da natureza do método científico.
Antes disso, ainda vamos discutir se as representações que temos da realidade são a própria realidade ou se são de uma natureza diferente daquela - como é apontado por David Hume.

O facto de percepcionarmos aspectos diferentes das Galáxias conforme os instrumentos usados para as observar é uma das pistas para esse debate.

2.12.2008

David Hume


David Hume, 1711-1776, escocês de Edimburgo, é considerado o mais importante dos filósofos de língua inglesa.
A Treatise of Human Nature (1739-1740), Enquiries concerning Human Understanding (1748) Enquiries concerning the Principles of Morals (1751), e Dialogues concerning Natural Religion (1779), estes últimos publicados postumamente, são obras que ainda hoje têm uma larga influência.

O incontornável Imanuel Kant reconheceu que Hume o "acordou do seu sono dogmático", despertando-o para a necessidade de fazer a crítica dos limites do conhecimento humano.
Hoje em dia, os filósofos reconhecem-no como percursor da perspectiva científica contemporânea e expoente máximo do naturalismo filosófico.
Fonte: Stanford Encyclopedia of Philosophy

A sua análise da dúvida metódica cartesiana permite-nos um outro olhar sobre este aspecto do pensamento de Descartes.

Os erros dos sentidos



Não preciso de insistir nos argumentos mais triviais utilizados pelos cépticos de todas as épocas contra os dados dos sentidos. Como os que se reportam às falhas e imperfeições dos nossos órgãos em inúmeras ocasiões, à aparência distorcida de um remo na água, às diferentes perspectivas dos objectos conforme as suas distâncias, às imagens duplas produzidas ao pressionarmos os olhos e a muitos outros fenómenos da mesma natureza. Na verdade, esses argumentos cépticos são apenas suficientes para provar que os sentidos, só por si, não são algo em que se possa confiar implicitamente, mas que o seu testemunho tem de ser corrigido pela razão e por considerações relacionadas com a natureza do meio, da distância do objecto e da disposição do órgão, para que se tornem, no seu âmbito próprio, critérios adequados de verdade e falsidade. Há outros argumentos mais profundos contra os sentidos, que não admitem uma solução tão fácil.

Parece evidente que as pessoas são levadas por um instinto ou predisposição natural a depositar fé nos seus sentidos e que, sem qualquer raciocínio supomos sempre um universo exterior que não depende da nossa percepção, e que existiria mesmo que nós e todas as outras criaturas sensíveis não existíssemos ou fôssemos aniquilados. Mesmo o reino animal se rege por uma opinião semelhante e conserva essa crença nos objectos exteriores em todos os seus pensamentos, desígnios e acções.
Também parece evidente que, quando as pessoas seguem este cego e poderosos instinto da natureza, tomam sempre as próprias imagens representadas pelos sentidos como sendo os próprios objectos externos, jamais suspeitando que as primeiras não passam de representações dos segundos.

A Dúvida Cartesiana


Existe uma espécie de cepticismo anterior a todo o estudo da filosofia, fortemente recomendado por Descartes e outros como uma protecção eficaz contra os erros e os juízos precipitados. Este cepticismo recomenda uma dúvida universal, não só quanto às nossas opiniões e princípios prévios, como também quanto às nossas próprias faculdades; faculdades essas de cuja veracidade, dizem, nos devemos assegurar por meio de uma cadeia de raciocínios deduzida de um princípio original que não possa de modo algum ser falacioso ou enganador. Mas por um lado não há um tal princípio original, dotado de uma qualquer prerrogativa sobre outros que são auto-evidentes e convincentes, e por outro, se ele existisse não poderíamos avançar um passo que fosse além dele, a não ser usando aquelas mesmas faculdades das quais já se supõe que desconfiamos.

Logo, a dúvida cartesiana, ainda que qualquer criatura a pudesse atingir (coisa que claramente não pode), seria totalmente incurável e nenhum raciocínio poderia alguma vez conduzir-nos a um estado de certeza e convicção sobre o que quer que fosse.

Contudo, tem de se confessar que esse tipo de cepticismo, quando mais moderado, pode ser entendido num sentido muito razoável e constitui uma preparação necessária para o estudo da filosofia, preservando uma adequada imparcialidade nos nossos juízos e libertando o espírito de todos os preconceitos que nos possam ter sido incutidos pela educação ou por opiniões precipitadas. Partir de princípios claros e auto-evidentes, avançar com passos seguros e cautelosos, rever frequentemente as nossas conclusões , examinando cuidadosamente todas as consequências; embora tais meios tornem o progresso dos nossos sistemas mais lento e limitado, são os únicos métodos que nos permitem esperar algum dia alcançar a verdade, chegando a uma adequada estabilidade e certeza nas nossas definições.

2.10.2008

Tópicos para Discussão



*Descartes conseguiu efectivamente refutar os cépticos?

*O argumento de Descartes a favor da existência de Deus é um bom argumento?

*O cogito é uma afirmação ou um argumento?

*Só podemos ter a garantia de que é verdadeiro o que concebemos clara e distintamente, porque sabemos que Deus existe; e sabemos que Deus existe, porque concebemos clara e distintamente a Sua existência; será este um raciocínio correcto?