5.11.2008

Outra vez a Sombrero



Estas são duas magníficas observações da Sombrero. Reparem como obtemos realidade variáveis, conforme os meios tecnológicos utilizados.
Um belo exemplo da multiplicidade de recolhas possíveis sobre a mesma realidade. Observação pura? Não me parece!

Galáxia do Sombrero


A propósito da observação pura que certos autores defendem ser característica da observação científica, esta imagem mostra como os instrumentos de observação condicionam os resultados obtidos.

Uma Crítica a Popper


Nos seus termo mais simples, a explicação de Popper para o conhecimento científico envolve generalizações e os seus testes observacionais. Se encontrarmos um contra-exemplo genuíno a uma generalização, podemos dizer que foi dedutivamente refutada. Segundo Popper, os casos negativos fornecem bases racionais para rejeitar generalizações. Se, contudo, fizermos observações e executarmos testes mas não encontrarmos instâncias negativas, tudo o que podemos dizer dedutivamente é que a generalização em questão não foi refutada.

O conceito de corroboração de Popper foi concebido para medir o modo com conjecturas têm resistido a críticas severas, incluindo testes severos. Penso que esta é a tese crucial: que há uma base racional para preferir usar num argumento previsivo uma generalização não refutada em detrimento de outra refutada. Se isso for verdade, então Popper pode legitimamente afirmar que resolveu o problema da previsão racional. É que as teorias científicas são usadas tanto para fins teóricos como práticos - fins esses que incluem a previsão.
Ora esta perspectiva da corroboração contém dificuldades sérias.

Watkins e Popper concordam, penso, que as afirmações corroboradas relatam observações do passado e do presente, e que afirmações deste tipo não têm em si conteúdo previsivo. As conjecturas, hipóteses, teorias é que têm conteúdo previsivo. Para fazer uma previsão, é necessário escolher uma conjectura que tenha conteúdo previsivo para ser usada como premissa num argumento previsivo. Para fazer uma previsão racional, parece-me ser necessário fazer uma escolha racional de uma premissa para tal argumento.
Porém, com base nas nossas provas observacionais e nas afirmações sobre a corroboração de uma dada conjectura não se garante qualquer avaliação previsiva. Assim, parece-me que a corroboração não fornece qualquer base racional para preferir uma conjectura a outra para fins de previsão prática.

Não estou a reclamar por não termos a certeza de que uma delas irá permitir uma previsão correcta e outra não. Estou a reclamar porque não se forneceu qualquer base racional para uma preferência deste tipo.

Wesley C. Salmon, Previsão Racional
(Adaptado)

Testar Teorias


Uma vez apresentada uma nova ideia, a título provisório, e ainda antes de ser justificada – quer seja uma antecipação, uma hipótese, um sistema teórico, ou que quer que seja – extraem-se dela conclusões através da dedução lógica. Estas conclusões são então comparadas entre si e com outras afirmações relevantes, de modo a descobrir que relações lógicas (tais como equivalência, derivabilidade, compatibilidade ou incompatibilidade) existem entre elas.

Podemos distinguir quatro procedimentos diferentes para testar teorias.
Em primeiro lugar, há a comparação lógica das conclusões umas com as outras, testando-se assim a consistência interna do sistema. Em segundo lugar, há o estudo da forma lógica da teoria, com o objectivo de determinar se tem o carácter de uma teoria empírica ou científica, ou se é, por exemplo, tautológica. Em terceiro lugar, há a comparação com outras teorias, principalmente com o objectivo de determinar se a teoria se a teoria constitui um avanço científico no caso de sobreviver aos testes. Por fim, há o teste da teoria através das aplicações empíricas das conclusões que dela se podem derivar.

O propósito deste último tipo de teste é descobrir até que ponto as novas consequências da teoria satisfazem os requisitos da prática. Também aqui o procedimento de teste acaba por ser dedutivo. Com a ajuda de outras afirmações anteriormente aceites, certas afirmações singulares – a que podemos chamar previsões – são deduzidas da teoria, especialmente previsões que são facilmente testáveis ou aplicáveis.

Seguidamente, tratamos de tomar uma decisão acerca destas afirmações deduzidas, comparando-as com os resultados das aplicações práticas e das experiências.
Se esta decisão for positiva, isto é, se as conclusões singulares se tornaram aceitáveis - ou verificadas – então a teoria passou temporariamente o teste.
Mas se a decisão for negativa, ou seja, se as conclusões tiverem sido falsificadas, então a sua falsificação falsifica também a teoria da qual foram logicamente deduzidas.

Deve dizer-se que uma decisão positiva apenas temporariamente pode apoiar a teoria, pois decisões negativas posteriores podem sempre fazê-la cair.

Enquanto um teoria resiste a testes minuciosos e exigentes e não é substituída por outra teoria, podemos dizer que é corroborada.
Karl Popper, A Lógica da Investigação científica

O Problema da Indução



É habitual chamar "indutiva" a uma inferência quando passa de afirmações singulares (por vezes chamadas particulares) tais como descrições dos resultados de observações ou de experiências, para afirmações universais, tais como hipóteses e teorias.

Ora, de um ponto de vista lógico, está longe de ser óbvio que a inferência de afirmações universais a partir de afirmações particulares - por mais elevado que seja o seu número - esteja justificada. É que a conclusão a que cheguemos por esta via corre sempre o risco de um dia se tornar falsa: qualquer que seja o número de exemplares de cisnes brancos que tenhamos observado, isso não justifica a conclusão de que todos os cisnes sejam brancos.

A questão de saber se as inferências indutivas estão justificadas ou em que condições o estão, é conhecida como o problema da indução.

Que facilmente podem surgir inconsistências em conexão com o princípio da indução, é algo que deveria ser claro a partir de Hume.
Karl Popper, A Lógica da Investigação científica

4.21.2008

O cepticismo mitigado


O cepticismo de David Hume é mitigado, isto é, moderado.

E porquê?
Em primeiro lugar, Hume rejeita todo o cepticismo radical, seja o cartesiano – porque desconfiar totalmente das nossas faculdades inviabiliza o recurso a qualquer forma de evidência como a do cogito para ultrapassar essa desconfiança – seja o pirrónico – porque duvidar de tudo o que não podemos justificar torna impossível qualquer forma de acção.

Hume, no entanto, embora não considere necessário rejeitar tudo aquilo que não conseguimos justificar, considera haver razões para avançar com cautela na investigação.

E isto porque estabeleceu as seguintes conclusões:
• somos incapazes de justificar a crença de que a Natureza é uniforme – inerente a todas as nossas inferências causais (princípio da causalidade);
• somos incapazes de justificar a crença de que o mundo exterior é real, pois não conseguimos demonstrar que as nossas percepções são causadas por objectos reais – e sem isto não podemos ter a certeza da verdade das nossas ideias.

Em consequência disto, devemos ter consciência dos limites do nosso entendimento e evitar não só o dogmatismo (a confiança cega na possibilidade de obtermos conhecimento), mas também todas as questões cujo carácter excessivamente especulativo torna impossível a certeza de existir correspondência entre uma ideia e uma impressão que estaria na sua origem.
A importância desta posição de Hume pode ser sublinhada pelo facto de Kant (séc. XVIII), um dos maiores filósofos europeus de todos os tempos, ter afirmado que David Hume o despertou do seu sono dogmático: tal despertar esteve na origem de toda a sua investigação filosófica dos limites do conhecimento humano.

Impressões e Ideias


Para David Hume, as ideias são cópias das impressões internas ou externas. Isto significa que as nossas ideias correspondem às nossas percepções dos objectos – princípio da cópia.
Um objecto provoca em nós uma impressão; essa impressão é guardada pela memória e essa recordação da impressão é a ideia que usamos para pensar, imaginar, formular ideias complexas.

Só podemos aceitar como verdadeiras as ideias em relação às quais é possível fazer corresponder a impressão de um objecto. A ideia de esfinge, por exemplo, que resulta do trabalho combinatório da nossa mente, não tem uma correspondência sensorial visto que não é possível ter qualquer percepção de tal animal enquanto ser vivo concreto. O mesmo acontece com a ideia de Deus: não corresponde a nenhuma impressão nascida da experiência sensorial, visto que Deus não é observável, e portanto não constitui um conhecimento verdadeiro.

Quando investigamos relações de ideias, obtemos a priori verdades necessárias mas que nada nos dizem sobre a realidade factual. Neste campo, trabalhamos com a demonstração e portanto com argumentos dedutivos.

Quando investigamos questões de facto, obtemos a posteriori verdades contingentes, mas que nos informam sobre a realidade factual. Aqui, fazemos inferências causais utilizando argumentos indutivos.

É fácil concluirmos que as relações de ideias apresentam a propriedade da necessidade lógica enquanto que as questões de facto não a apresentam. O princípio da causalidade é estabelecido devido ao hábito de observar essa conjunção constante entre certos factos. Logo, temos aqui um problema de limites do conhecimento.